Instituto Mondelli de Odontologia
Livro do TOI

CAPÍTULO 2 — 1997: A SEMENTE GERMINOU

Em 1997, durante o mestrado em Dentística Restauradora na FOB-USP, fui incentivado por meu pai, Prof. Dr. José Mondelli, a estudar Ortodontia para atender às necessidades dos tratamentos clínicos integrados. O que inicialmente seria apenas uma ampliação dos meus conhecimentos transformou profundamente minha maneira de diagnosticar e planejar os tratamentos. Passei a perceber alterações dentárias e oclusais que anteriormente não reconhecia e a questionar se os procedimentos realizados, embora tecnicamente corretos, realmente proporcionavam a melhor condição possível ao paciente. Compreendi que a qualidade do tratamento não dependia apenas da excelência na execução, mas também da abrangência do diagnóstico e da definição adequada dos objetivos terapêuticos. Assim, em 1997, começou a germinar a semente do T.O.I., fundamentada na necessidade de utilizar o conhecimento odontológico de maneira integrada, consciente e orientada às reais necessidades de cada paciente. Dr. Adriano Lia Mondelli

Clínica Mondelli 9 min de leitura
CAPÍTULO 2 — 1997: A SEMENTE GERMINOU

PARTE I — A ORIGEM E A EVOLUÇÃO DO T.O.I.

CAPÍTULO 2 — 1997: A SEMENTE GERMINOU

2.1 — Uma necessidade clínica que abriu um novo caminho

Em 1997, ao ingressar no mestrado em Dentística Restauradora e Materiais Dentários na Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de São Paulo (FOB-USP), eu não imaginava que aquele período representaria o início de uma transformação importante na minha trajetória profissional. Minha formação estava concentrada na Dentística Restauradora, especialidade à qual dedicava grande parte dos meus estudos e atividades clínicas. Entretanto, uma necessidade identificada nos tratamentos realizados na instituição acabaria conduzindo meus interesses para outra área da Odontologia.

Naquela época, meu pai, Prof. Dr. José Mondelli, coordenava a disciplina de Tratamentos Clínicos Integrados e frequentemente encontrava situações nas quais o posicionamento dos dentes dificultava a realização de procedimentos restauradores e protéticos. Dentes migrados, espaços inadequados e alterações de posição exigiam movimentações ortodônticas antes que os demais tratamentos pudessem ser executados. Diante dessa necessidade, ele me incentivou a cursar a especialização em Ortodontia, para que eu pudesse contribuir com os casos que dependiam dessas intervenções.

A proposta inicial era objetiva. Eu deveria adquirir conhecimentos ortodônticos suficientes para resolver problemas específicos encontrados nos tratamentos integrados. Não existia, naquele momento, a intenção de desenvolver uma nova filosofia ou modificar os fundamentos da prática odontológica. Tratava-se de ampliar minha formação para atender a uma demanda clínica concreta, utilizando a Ortodontia como recurso complementar às especialidades restauradoras.

Entretanto, o que começou como uma necessidade de adquirir novas competências acabou provocando uma transformação mais profunda. Ao estudar Ortodontia, passei a reconhecer condições dentárias e oclusais que anteriormente não ocupavam a mesma importância em minhas avaliações. A nova especialidade não acrescentou apenas técnicas à minha formação. Ela ampliou minha capacidade de interpretar os pacientes e começou a modificar os critérios utilizados para estabelecer os objetivos dos tratamentos.

2.2 — O conhecimento ampliou as possibilidades do diagnóstico

Minha formação em Dentística Restauradora havia desenvolvido uma capacidade de observação detalhada das estruturas dentárias. Pequenas alterações anatômicas, diferenças de cor, contornos inadequados, problemas de textura e imperfeições restauradoras faziam parte dos aspectos que orientavam minhas avaliações. Esses conhecimentos eram fundamentais para reconhecer necessidades específicas e procurar resultados cada vez mais precisos.

Com o estudo da Ortodontia, comecei a identificar outras condições presentes nos mesmos pacientes. Alterações no posicionamento dos dentes, relações entre as arcadas, características da intercuspidação e aspectos funcionais passaram a integrar minhas observações. Aquilo que anteriormente poderia receber pouca atenção começou a adquirir significado clínico, porque eu havia desenvolvido conhecimentos que permitiam reconhecer e interpretar essas condições.

Os pacientes não haviam mudado. O que se modificara era minha capacidade de compreender aquilo que estava diante de mim. Essa experiência demonstrou que o diagnóstico não depende exclusivamente das condições apresentadas pelo paciente, mas também do conhecimento utilizado pelo profissional para interpretá-las. Quanto mais abrangente se torna sua formação, maiores podem ser as possibilidades de reconhecer necessidades que anteriormente passavam despercebidas.

Entretanto, essa ampliação trouxe uma responsabilidade adicional. Reconhecer uma alteração não significava, necessariamente, que ela deveria ser tratada, mas exigia avaliar sua importância clínica, suas consequências e as possibilidades de intervenção. O conhecimento ortodôntico começava, portanto, a influenciar não apenas aquilo que eu observava, mas também as perguntas que precisava formular antes de estabelecer uma conduta.

2.3 — A Ortodontia como recurso auxiliar da Clínica Integrada

Nos primeiros tratamentos integrados em que participei como ortodontista, minha atuação estava geralmente relacionada à preparação dos dentes para procedimentos de outras especialidades. A Ortodontia era utilizada para recuperar espaços, corrigir posições localizadas ou criar condições favoráveis à execução de restaurações e próteses. Sua participação possuía uma finalidade específica dentro de um planejamento predominantemente restaurador.

Em um desses casos, por exemplo, foi necessário movimentar um dente que havia migrado de sua posição original, recuperando o espaço necessário para o procedimento restaurador. Para isso, utilizei um aparelho ortodôntico parcial, com recursos mecânicos adequados à movimentação pretendida. O tratamento cumpriu o objetivo estabelecido: o dente foi reposicionado, o espaço foi recuperado e a etapa restauradora pôde ser realizada.

Sob a perspectiva da finalidade inicialmente proposta, o resultado era satisfatório. A Ortodontia havia resolvido o problema que motivara sua indicação, e a intervenção restauradora pôde prosseguir. Entretanto, ao examinar o paciente com os conhecimentos que estava adquirindo, comecei a perceber que a movimentação realizada não significava, necessariamente, que todas as condições ortodônticas e oclusais estivessem adequadas.

Essa constatação não tornava incorreta a intervenção localizada, pois movimentações parciais podem possuir indicações legítimas. O questionamento estava na abrangência da avaliação inicial. Se outras alterações relevantes estavam presentes, seria necessário reconhecê-las, compreender suas implicações e determinar se deveriam participar dos objetivos terapêuticos. A Ortodontia podia continuar sendo utilizada como recurso auxiliar, mas sua contribuição não precisava ser definida exclusivamente pelas necessidades de outra especialidade.

2.4 — Quando o resultado alcançado começou a ser questionado

A comparação entre os objetivos restauradores e ortodônticos começou a provocar uma inquietação no meu raciocínio clínico. Na Dentística, dedicávamos grande atenção à reprodução das características naturais dos dentes, utilizando conhecimentos, materiais e técnicas para alcançar resultados precisos. Entretanto, quando a Ortodontia participava de determinados tratamentos integrados, sua atuação frequentemente se restringia às movimentações necessárias para permitir a execução de outros procedimentos.

Ao analisar esses tratamentos, comecei a perceber que uma intervenção poderia alcançar integralmente sua finalidade particular sem que o conjunto das condições bucais tivesse sido considerado com a mesma abrangência. Um aparelho ortodôntico poderia recuperar um espaço e cumprir corretamente sua função, enquanto outras alterações dentárias ou oclusais permaneciam presentes. O resultado correspondia ao planejamento, mas isso não demonstrava, por si só, que o planejamento contemplara todas as necessidades relevantes.

Era necessário distinguir duas questões. A primeira dizia respeito à qualidade da execução: o procedimento havia sido realizado corretamente? A segunda envolvia a adequação dos objetivos: aquilo que havia sido planejado correspondia à melhor conduta para aquele paciente? Essas perguntas não eram equivalentes. Um resultado tecnicamente satisfatório poderia coexistir com limitações decorrentes da extensão do planejamento.

Essa reflexão começou a modificar a maneira como eu avaliava os tratamentos concluídos. O problema não estava em exigir intervenções mais extensas indiscriminadamente, mas em reconhecer que os objetivos deveriam ser estabelecidos a partir de uma avaliação clínica suficientemente abrangente. As limitações de um tratamento precisavam resultar de decisões conscientes e justificadas, e não simplesmente da ausência de investigação de outras possibilidades.

2.5 — A inquietação começou a influenciar as decisões

A ampliação dos conhecimentos ortodônticos produziu uma consequência importante: tornou-se cada vez mais difícil aceitar que uma necessidade clínica reconhecida permanecesse fora do planejamento sem que houvesse uma justificativa para isso. A excelência que eu procurava alcançar nos procedimentos restauradores precisava estar acompanhada do mesmo rigor na avaliação das condições ortodônticas e oclusais.

Comecei, então, a considerar alternativas que ultrapassavam a finalidade localizada inicialmente atribuída à Ortodontia. Em determinadas situações, em vez de movimentar apenas os dentes necessários à execução de uma restauração, poderia ser mais adequado avaliar a possibilidade de corrigir outras alterações relevantes antes da finalização restauradora. Essa mudança exigia ampliar o diagnóstico, discutir objetivos e compreender as relações entre as diferentes etapas do tratamento.

Não se tratava de substituir uma especialidade por outra ou de considerar insuficiente toda intervenção parcial. O objetivo era utilizar os conhecimentos disponíveis de maneira mais coerente com as necessidades identificadas. A participação da Ortodontia deixava de ser interpretada exclusivamente como uma preparação mecânica para procedimentos restauradores e começava a ser considerada dentro de uma avaliação mais abrangente do paciente.

Entretanto, ainda não existia uma filosofia estruturada capaz de orientar sistematicamente essas decisões. O que começava a surgir era uma exigência de coerência entre aquilo que eu conseguia diagnosticar, os objetivos estabelecidos e as intervenções realizadas. O conhecimento havia ampliado minha capacidade de observação; agora, essa ampliação começava a influenciar minha conduta clínica.

2.6 — Da inquietação à necessidade de novas experiências

Modificar uma maneira de pensar não significava comprovar imediatamente que uma conduta diferente produziria resultados superiores. Era necessário aplicar os conhecimentos adquiridos, acompanhar os tratamentos e avaliar suas consequências. Por isso, as experiências clínicas realizadas naquele período tiveram importância fundamental para o amadurecimento das ideias que começavam a surgir.

As fotografias, os registros clínicos e o acompanhamento dos pacientes permitiam comparar as condições iniciais, as intervenções realizadas e os resultados alcançados. Esses recursos ofereciam oportunidades para reconhecer diferenças entre o que havia sido planejado e o que efetivamente se conseguia proporcionar. Cada tratamento acrescentava informações, embora nenhuma experiência isolada fosse suficiente para estabelecer conclusões universais.

Progressivamente, tornou-se necessário avaliar não apenas a qualidade de cada procedimento, mas também a relação entre as decisões clínicas. A movimentação ortodôntica, a restauração e as demais intervenções não deveriam ser consideradas atividades independentes quando seus resultados influenciavam uns aos outros. A maneira como os objetivos eram estabelecidos começava a adquirir tanta importância quanto os recursos utilizados para alcançá-los.

Essas inquietações prepararam o caminho para acontecimentos que teriam significado especial na evolução do meu raciocínio. Algumas experiências demonstrariam, de maneira mais evidente, as limitações de determinados planejamentos e a possibilidade de organizar os tratamentos a partir de objetivos mais abrangentes. Entretanto, naquele momento, a transformação ainda estava em desenvolvimento e precisava ser confrontada com novas situações clínicas.

2.7 — A semente de uma nova maneira de pensar

Ao recordar 1997, reconheço que a principal transformação não foi simplesmente ter iniciado o estudo de outra especialidade. O acontecimento mais importante foi perceber que a ampliação do conhecimento modificava minha capacidade de reconhecer problemas e, consequentemente, as decisões que precisava considerar. A Ortodontia abriu uma nova perspectiva sobre pacientes que eu já estava habituado a avaliar pela Dentística Restauradora.

Essa experiência acrescentou uma dimensão importante à formação recebida. A excelência técnica continuava sendo indispensável, mas a qualidade do tratamento começava a exigir uma avaliação mais abrangente dos objetivos clínicos. Já não bastava compreender como executar corretamente determinada intervenção. Tornava-se necessário investigar se aquela intervenção, isoladamente ou em conjunto com outras, correspondia às necessidades identificadas e às possibilidades terapêuticas do paciente.

O Tratamento Odontológico Ideal ainda não existia como filosofia organizada. Seus fundamentos, princípios e critérios de aplicação seriam desenvolvidos posteriormente, a partir de novas experiências e reflexões. Entretanto, naquele período, surgiu uma inquietação que modificaria progressivamente minha maneira de pensar: o conhecimento odontológico precisava ser utilizado não apenas para aperfeiçoar procedimentos, mas também para compreender melhor aquilo que deveria ser realizado.

Em 1997, não nasceu uma filosofia pronta. Germinou a semente de uma nova maneira de compreender o tratamento odontológico.

Dr. Adriano Lia Mondelli