Instituto Mondelli de Odontologia
Livro do TOI

Capítulo 10 — A Odontologia Pode Desorganizar

A Odontologia, embora disponha de conhecimentos e recursos capazes de preservar e recuperar a saúde bucal, também pode provocar desorganização quando suas intervenções são inadequadamente indicadas, planejadas, executadas ou sequenciadas. Um procedimento tecnicamente perfeito pode fazer parte de um planejamento equivocado, assim como um planejamento correto pode ser comprometido por falhas de execução. Surge, nesse contexto, o conceito de Terapêutica Desordenada, caracterizado pela realização de tratamentos isolados, sem integração ou continuidade dos objetivos ao longo da vida. Como na construção de uma parede de tijolos, cada intervenção influencia as condições das etapas seguintes, podendo contribuir para a estabilidade do conjunto ou favorecer a Desestruturação em Cascata. O Tratamento Odontológico Ideal (T.O.I.) propõe substituir essa fragmentação por um planejamento integrado, fundamentado no diagnóstico, nas Metas Terapêuticas, na sequência adequada dos procedimentos e na preservação das possibilidades futuras. A mesma Odontologia que pode desorganizar também pode organizar, desde que cada intervenção faça parte de um projeto terapêutico orientado para o paciente como um todo. Dr. Adriano Lia Mondelli

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Capítulo 10 — A Odontologia Pode Desorganizar

PARTE II — AS FORÇAS QUE TRABALHAM CONTRA O T.O.I.

CAPÍTULO 10 — A ODONTOLOGIA PODE DESORGANIZAR

Quando o próprio tratamento compromete a organização da saúde bucal

10.1 — Quando tratar não significa necessariamente cuidar

No capítulo anterior, foram apresentados os processos biológicos capazes de comprometer as estruturas dentárias, os tecidos periodontais e as relações oclusais ao longo da vida. A análise dos Ciclos da Degradação da Saúde Bucal demonstrou que determinadas alterações podem progredir, produzir perdas irreversíveis e influenciar outras estruturas. Entretanto, a trajetória odontológica de um paciente não depende exclusivamente desses processos. A partir do momento em que um profissional realiza uma intervenção, suas decisões também passam a influenciar a condição biológica e funcional daquele indivíduo.

A Odontologia possui extraordinária capacidade de prevenir doenças, controlar processos patológicos, corrigir alterações e recuperar estruturas comprometidas. O desenvolvimento de conhecimentos científicos, materiais e técnicas ampliou significativamente as possibilidades terapêuticas. Entretanto, a capacidade de realizar um procedimento não significa, necessariamente, que sua execução produzirá uma melhoria da condição global do paciente. Em determinadas circunstâncias, intervenções inadequadamente indicadas, planejadas ou executadas podem introduzir limitações, comprometer estruturas ou criar necessidades que anteriormente não existiam.

Essa possibilidade não se restringe aos erros técnicos. Um procedimento pode ser executado corretamente, mas apresentar uma indicação inadequada. Da mesma maneira, um tratamento pode possuir objetivos apropriados e ser comprometido por deficiências de execução. Existem ainda situações nas quais resultados clinicamente insuficientes são aceitos como satisfatórios ou intervenções são realizadas sem considerar sua relação com outras necessidades odontológicas. Cada uma dessas circunstâncias pode produzir consequências diferentes, mas todas demonstram que a qualidade de um tratamento depende de mais fatores do que a habilidade técnica isoladamente.

Dessa compreensão surge uma distinção fundamental para o T.O.I.: realizar um procedimento não significa necessariamente proporcionar um tratamento adequado. A qualidade odontológica exige coerência entre diagnóstico, indicação, planejamento, execução e acompanhamento. Quando uma dessas dimensões apresenta deficiências relevantes, a intervenção pode deixar de contribuir para a condição pretendida e, em determinadas situações, acrescentar novos problemas à história clínica do paciente.

10.2 — Quando o planejamento está errado, mesmo que a execução esteja correta

Uma das formas de desorganização odontológica ocorre quando determinado procedimento é tecnicamente bem executado, mas sua indicação ou seu planejamento são inadequados. O profissional pode dominar a técnica, respeitar seus princípios e concluir a intervenção sem intercorrências. Entretanto, se a decisão inicial não estiver corretamente fundamentada, a qualidade da execução não será suficiente para transformar aquela conduta em um tratamento apropriado. Nesse caso, o problema não está necessariamente na maneira de fazer, mas na escolha daquilo que deveria ser feito.

Uma extração de dente permanente hígido realizada em decorrência de um planejamento ortodôntico inadequado exemplifica essa situação. A cirurgia pode ser executada com absoluta precisão, mas, se a remoção não possuía justificativa clínica suficiente, terá produzido uma perda biológica irreversível. Isso não significa que extrações ortodônticas sejam necessariamente incorretas, pois existem situações em que são devidamente indicadas. O problema está na realização de uma intervenção irreversível sem considerar adequadamente o diagnóstico, as alternativas terapêuticas e as consequências da decisão.

O mesmo raciocínio pode ser aplicado à Implantodontia e à Prótese. Um implante pode apresentar adequada osseointegração e, ainda assim, ter sido instalado em uma posição que dificulte a reabilitação pretendida. Uma prótese pode apresentar excelente adaptação, mas ter sido confeccionada sem considerar alterações dentárias, periodontais ou funcionais que deveriam ter sido abordadas previamente. Nessas circunstâncias, a execução correta de um procedimento não elimina as limitações decorrentes de sua indicação ou da ausência de integração com outras necessidades clínicas.

As consequências de um planejamento inadequado nem sempre são imediatamente perceptíveis. Um resultado aparentemente satisfatório pode revelar suas limitações somente quando surge a necessidade de outra intervenção. Por isso, a responsabilidade do planejamento não se restringe à resolução do problema presente. É necessário considerar também as condições que permanecerão após o tratamento e as possibilidades terapêuticas que estarão disponíveis no futuro.

10.3 — Quando o planejamento está correto, mas a execução está errada

A situação inversa também pode ocorrer. Um profissional pode estabelecer corretamente o diagnóstico, definir objetivos adequados e organizar uma sequência terapêutica coerente, mas executar deficientemente determinado procedimento. Nesse caso, o problema não está na direção escolhida, mas na capacidade técnica de realizar aquilo que foi planejado. A qualidade do projeto terapêutico, por si só, não garante a qualidade de sua execução.

Na Ortodontia, uma indicação correta pode ser comprometida pelo posicionamento inadequado de acessórios, pela aplicação imprópria de forças ou pelo controle insuficiente da mecânica. Essas deficiências podem produzir movimentações indesejadas e, em determinadas circunstâncias, contribuir para danos periodontais ou radiculares. É importante reconhecer que complicações também podem ocorrer em tratamentos corretamente conduzidos, em razão da resposta biológica individual. Entretanto, essa possibilidade não elimina a responsabilidade de prevenir e controlar os danos tecnicamente evitáveis.

Na Dentística, restaurações inadequadamente executadas podem apresentar deficiências de adaptação, anatomia, contatos proximais ou acabamento, favorecendo retenção de biofilme e novas necessidades de intervenção. Na Endodontia, falhas técnicas podem comprometer o controle da infecção e o prognóstico do elemento dentário. Na Prótese, deficiências de adaptação ou de execução podem produzir consequências para os dentes e tecidos envolvidos. Cada especialidade apresenta exigências próprias, mas todas dependem de conhecimentos e habilidades compatíveis com a complexidade dos procedimentos realizados.

Essa responsabilidade torna-se especialmente importante em tratamentos que exigem conhecimentos específicos, como a movimentação ortodôntica de pacientes parcialmente dentados ou periodontalmente comprometidos. A ausência de dentes ou a redução do suporte periodontal não contraindica automaticamente a Ortodontia, mas exige diagnóstico, planejamento biomecânico e controle clínico apropriados. Quando o profissional não possui competência suficiente para determinada intervenção, deve reconhecer suas limitações e considerar o encaminhamento. Um planejamento correto não protege o paciente das consequências de uma execução tecnicamente inadequada.

10.4 — Quando a baixa qualidade passa a ser aceita

Existe uma diferença importante entre a ocorrência de uma deficiência técnica e sua aceitação consciente como resultado satisfatório. Um erro pode decorrer de limitações de conhecimento, habilidade, julgamento ou circunstâncias clínicas. Entretanto, quando o profissional reconhece uma deficiência relevante e decide apresentar o procedimento como adequadamente concluído, acrescenta-se uma dimensão ética ao problema. A responsabilidade deixa de envolver apenas a qualidade da execução e passa a incluir a maneira como suas limitações são reconhecidas e administradas.

Essa questão merece atenção porque o paciente geralmente não possui conhecimentos suficientes para avaliar integralmente a qualidade técnica daquilo que recebe. Ele pode perceber a aparência de uma restauração, o conforto de uma prótese ou o alinhamento dos dentes, mas dificilmente conseguirá identificar todas as condições biológicas e funcionais necessárias para julgar a adequação do tratamento. Sua satisfação é importante, porém não constitui prova suficiente de qualidade clínica.

Cabe ao profissional reconhecer deficiências, avaliar suas consequências e corrigi-las quando necessário e possível. Não seria razoável exigir que o paciente identificasse uma adaptação marginal inadequada, uma deficiência biomecânica ou uma limitação funcional que não lhe foi devidamente esclarecida. A diferença de conhecimento entre profissional e paciente estabelece uma responsabilidade que não pode ser transferida à pessoa atendida. A qualidade precisa ser sustentada pelo conhecimento, pela competência e pela consciência de quem executa o tratamento.

Entretanto, é necessário distinguir um resultado abaixo de uma referência ideal de um procedimento abaixo dos padrões técnicos aceitáveis. Nem sempre a condição desejada pode ser integralmente alcançada, especialmente diante de limitações anatômicas, biológicas ou individuais. Essas circunstâncias podem justificar resultados diferentes daqueles inicialmente pretendidos, desde que sejam clinicamente fundamentados e adequadamente esclarecidos. O problema não está na existência de limitações justificáveis, mas na aceitação de deficiências evitáveis ou na apresentação de resultados inadequados como se fossem satisfatórios.

10.5 — Quando a solicitação do paciente substitui o diagnóstico

Outra possibilidade de desorganização surge quando o atendimento é orientado exclusivamente pelo procedimento solicitado pelo paciente. Muitas pessoas procuram o dentista porque percebem determinada necessidade, como um dente quebrado, uma ausência dentária, uma dor, um desalinhamento ou uma insatisfação estética. Em algumas situações, chegam ao consultório com uma solução previamente escolhida. Entretanto, aquilo que desejam realizar não corresponde necessariamente à totalidade de suas necessidades clínicas.

Um paciente pode procurar atendimento para instalar um implante sem compreender que as posições dentárias, os espaços disponíveis ou as condições periodontais precisam ser avaliados previamente. Outro pode solicitar facetas para melhorar a aparência do sorriso, embora apresente alterações que recomendem uma abordagem diferente. Também existem pessoas interessadas apenas no alinhamento dos dentes anteriores, sem conhecer outras condições relevantes de sua oclusão. Em todos esses exemplos, a solicitação inicial representa uma informação importante, mas não substitui a investigação diagnóstica.

As expectativas e prioridades do paciente devem participar do planejamento, pois a decisão terapêutica precisa considerar seus valores, suas possibilidades e sua autonomia. Entretanto, respeitar essas condições não significa transformar automaticamente uma solicitação em indicação clínica. Cabe ao profissional realizar o diagnóstico, apresentar alternativas, explicar os riscos e benefícios envolvidos e esclarecer as consequências das diferentes escolhas. Somente assim a decisão poderá ser adequadamente compartilhada.

Essa distinção protege tanto o paciente quanto a responsabilidade profissional. A pessoa atendida possui o direito de aceitar ou recusar tratamentos devidamente esclarecidos, mas o dentista não deve executar uma intervenção que considere inadequada apenas porque ela foi solicitada. A demanda pertence ao paciente; a responsabilidade pela indicação clínica pertence ao profissional. O tratamento deve nascer da compreensão das necessidades, e não simplesmente da escolha antecipada de um procedimento.

10.6 — A ordem dos fatores altera o produto

Mesmo quando os procedimentos estão corretamente indicados e podem ser executados com qualidade, permanece uma questão fundamental: a sequência terapêutica. Na matemática, determinadas operações apresentam a propriedade de que a ordem dos fatores não altera o produto. Na Odontologia, entretanto, a ordem das intervenções pode modificar significativamente o resultado, influenciando a qualidade, a previsibilidade e até a possibilidade de realizar determinados tratamentos.

Um paciente pode necessitar de tratamento periodontal, movimentação ortodôntica, restaurações e reabilitação protética. Todos esses procedimentos podem estar adequadamente indicados, mas isso não significa que possam ser realizados em qualquer sequência. Uma restauração definitiva executada antes de determinada movimentação dentária pode precisar ser modificada posteriormente. Um implante instalado antes da organização dos espaços pode estabelecer limitações difíceis de corrigir. Uma reabilitação iniciada sem o controle de uma doença ativa pode apresentar prognóstico comprometido.

A organização terapêutica não significa, entretanto, que todas as intervenções definitivas devam ser adiadas até a conclusão das demais especialidades. Em determinadas circunstâncias, tratamentos de urgência, restaurações provisórias, procedimentos de estabilização ou intervenções definitivas específicas são necessários para permitir o desenvolvimento seguro das etapas seguintes. O importante é compreender a função de cada procedimento e sua relação com os objetivos estabelecidos para o conjunto.

Dessa compreensão surge o conceito de Terapêutica Desordenada, que representa a realização de intervenções sem uma organização coerente com as necessidades, prioridades e objetivos globais do paciente. O problema pode ocorrer mesmo quando cada procedimento, analisado isoladamente, apresenta qualidade técnica satisfatória. Uma lista de procedimentos informa aquilo que será realizado; um verdadeiro planejamento estabelece por que, quando e em qual sequência cada intervenção deverá acontecer. Na Odontologia, fazer a coisa certa na ordem errada também pode produzir o resultado errado.

10.7 — Quando a sequência precisa respeitar as condições biológicas

A sequência terapêutica não pode ser estabelecida exclusivamente pela conveniência operacional ou pela disponibilidade de agenda. Ela precisa considerar as condições biológicas, funcionais e clínicas que determinam a segurança e a eficácia das intervenções. Algumas etapas dependem da estabilização de doenças; outras exigem preparação anatômica ou funcional; e determinadas decisões irreversíveis precisam aguardar a definição de objetivos que envolvem diferentes especialidades.

Na Ortodontia, por exemplo, o início de determinadas movimentações pode depender do controle periodontal e da avaliação das condições de suporte. Em pacientes com perdas dentárias, pode ser necessário estabelecer previamente os objetivos reabilitadores, para que a movimentação contribua para a distribuição adequada dos espaços. Na Reabilitação Oral, procedimentos provisórios podem desempenhar uma função importante enquanto as relações dentárias e funcionais ainda estão sendo organizadas.

A sequência também precisa considerar a resposta individual do paciente. Novas informações diagnósticas, alterações das condições clínicas ou respostas biológicas inesperadas podem exigir modificações no planejamento inicial. Isso demonstra que um projeto terapêutico adequado não deve ser confundido com uma sequência rígida e imutável. A organização precisa possuir coerência, mas também permitir ajustes fundamentados durante sua execução.

Portanto, a ordem das intervenções deve resultar do raciocínio clínico e das necessidades terapêuticas, não apenas da organização administrativa dos procedimentos. A disponibilidade dos profissionais e dos recursos precisa ser considerada, mas não pode substituir os critérios biológicos e clínicos que orientam o tratamento. A agenda deve atender às necessidades do tratamento; as necessidades do tratamento não devem ser subordinadas à conveniência da agenda.

10.8 — A Terapêutica Desordenada ao longo da vida

A Terapêutica Desordenada não ocorre necessariamente apenas dentro de um tratamento específico. Ela também pode se desenvolver ao longo da história odontológica de uma pessoa, por meio de intervenções realizadas em diferentes momentos e por diferentes profissionais. Cada procedimento modifica ou preserva determinadas condições, que passam a integrar o ponto de partida das decisões futuras. Assim, a história clínica é construída progressivamente, e os resultados de uma etapa podem influenciar as possibilidades da seguinte.

Um paciente pode iniciar seus tratamentos na infância, procurar outro dentista durante a adolescência, mudar de cidade e utilizar diferentes serviços odontológicos ao longo da vida adulta. Em determinado momento, recebe uma restauração; anos depois, necessita de tratamento endodôntico; posteriormente, realiza uma intervenção protética ou ortodôntica. Cada profissional encontra uma condição já influenciada pelos acontecimentos anteriores e precisa decidir como atuar a partir dela. Essa sucessão de tratamentos não é necessariamente inadequada, pois muitas intervenções são indispensáveis e corretamente executadas.

O risco de desorganização surge quando não existe continuidade suficiente das informações clínicas e dos objetivos terapêuticos. Nessas circunstâncias, cada procedimento pode ser planejado apenas em função da necessidade imediata, sem considerar adequadamente sua relação com a história anterior e com as possibilidades futuras. A fragmentação pode ocorrer mesmo quando diferentes profissionais demonstram competência técnica, pois a qualidade individual de suas intervenções não garante a coerência do conjunto.

A observação de pacientes de diferentes faixas etárias no Instituto Mondelli, incluindo indivíduos com décadas de tratamentos acumulados, contribuiu para reforçar essa preocupação. As condições encontradas apresentavam combinações variadas de restaurações, ausências dentárias, alterações periodontais e relações oclusais. Essas observações não permitem atribuir automaticamente causalidade aos tratamentos recebidos, mas demonstram a importância de investigar a continuidade das decisões clínicas. O que precisa permanecer ao longo da vida não é necessariamente o mesmo dentista, mas a lógica que orienta o tratamento.

10.9 — A parede de tijolos: a construção de uma história odontológica

A construção de uma parede de tijolos oferece uma analogia para compreender como decisões sucessivas podem influenciar a condição odontológica. Para construir uma parede reta, resistente e organizada, é necessário possuir um projeto, utilizar materiais adequados e respeitar uma sequência coerente de execução. Cada tijolo colocado passa a integrar uma estrutura que sustentará as etapas seguintes. O resultado final depende não apenas da qualidade de cada elemento, mas também de sua posição e da relação estabelecida com os demais.

Se um tijolo for retirado da base e a construção continuar sem considerar aquela ausência, as camadas posteriores poderão precisar adaptar-se à alteração. Se outros tijolos forem posicionados inadequadamente, novos desvios poderão surgir. A parede poderá continuar em pé durante muito tempo, mas sua organização refletirá as decisões tomadas ao longo de toda a construção. A deformação encontrada no final não poderá ser atribuída exclusivamente ao último tijolo colocado.

Essa imagem permite distinguir diferentes problemas. Escolher incorretamente a posição de um tijolo representa uma falha de planejamento. Saber onde ele deveria ser colocado, mas assentá-lo inadequadamente, representa uma falha de execução. Perceber que está torto e aceitá-lo sem justificativa corresponde à tolerância consciente de uma deficiência. Retirar desnecessariamente um tijolo importante pode comprometer a organização das camadas seguintes. Cada situação possui uma origem distinta, embora todas possam influenciar o resultado da construção.

Na Odontologia, a história apresenta características semelhantes. Um dente é restaurado, outro é perdido, um espaço se modifica, uma prótese é instalada e novas intervenções precisam considerar as condições existentes. Algumas mudanças são necessárias e corretamente conduzidas; outras podem resultar de decisões inadequadas. A analogia demonstra que não basta assentar corretamente cada tijolo quando não existe atenção à organização da parede. Entretanto, existe uma diferença fundamental: na construção civil, muitas estruturas podem ser demolidas e reconstruídas; no organismo, determinadas perdas biológicas não podem ser integralmente recuperadas.

10.10 — Quando o tratamento interfere nos ciclos da degradação

Os Ciclos da Degradação da Saúde Bucal, apresentados no capítulo anterior, representam diferentes trajetórias de comprometimento dentário, periodontal e oclusal. A partir do momento em que uma intervenção odontológica é realizada, suas consequências podem influenciar essas trajetórias. Dependendo de sua indicação, planejamento e execução, um tratamento pode controlar determinado processo ou acrescentar condições que favoreçam novas alterações.

Uma restauração inadequadamente executada pode dificultar o controle do biofilme e contribuir para comprometimentos dentários ou periodontais. Uma extração desnecessária produz uma perda estrutural irreversível e pode, conforme as características individuais, modificar relações dentárias e oclusais. Uma mecânica ortodôntica incorretamente conduzida pode provocar movimentações indesejadas ou agravar condições de suporte previamente comprometidas. Esses exemplos demonstram que determinadas intervenções podem acrescentar fatores desfavoráveis à condição existente.

As consequências também podem interagir com problemas já instalados. Um dente extensamente restaurado apresenta características diferentes das de um elemento íntegro quando submetido a novas intervenções. Um dente com suporte periodontal reduzido pode exigir cuidados específicos durante a movimentação ortodôntica. Assim, uma deficiência terapêutica pode modificar a evolução de um processo que já estava em desenvolvimento, sem necessariamente representar sua causa inicial.

É nesse contexto que a atuação odontológica pode participar da Desestruturação em Cascata. Uma intervenção inadequada pode produzir uma alteração localizada ou agravar uma condição preexistente, criando repercussões sobre outras estruturas. Isso não significa que toda complicação decorra de erro profissional, nem que toda intervenção apresente consequências desfavoráveis. Significa reconhecer que decisões terapêuticas podem acrescentar riscos evitáveis e modificar trajetórias biológicas que precisam ser consideradas durante o planejamento.

10.11 — A responsabilidade de preservar as possibilidades futuras

O planejamento odontológico não deve se limitar à seleção de procedimentos capazes de resolver os problemas atuais. Sua responsabilidade inclui considerar as consequências de cada decisão, especialmente quando envolve modificações irreversíveis ou pode limitar intervenções futuras. Uma escolha clinicamente adequada precisa ser avaliada não apenas pelo benefício imediato, mas também pelas condições que deixará para as próximas etapas e para os anos seguintes.

Essa responsabilidade exige distinguir necessidade, indicação e prioridade. Um paciente pode apresentar várias necessidades simultaneamente, mas isso não significa que todas devam ser tratadas imediatamente. Algumas exigem intervenção urgente; outras dependem de preparação prévia; determinadas condições podem ser acompanhadas; e certos procedimentos precisam aguardar a conclusão de etapas anteriores. Reconhecer uma necessidade pertence ao diagnóstico, enquanto estabelecer sua indicação, prioridade e sequência faz parte do planejamento terapêutico.

A execução e o acompanhamento também integram essa responsabilidade. Um tratamento corretamente planejado precisa ser monitorado, e seus resultados devem ser avaliados criticamente. Quando surgem complicações, limitações ou novas informações, pode ser necessário rever decisões, modificar estratégias ou encaminhar o paciente para profissionais com competências específicas. A capacidade de reconhecer a necessidade de mudanças representa parte da qualidade do tratamento, e não necessariamente uma deficiência do planejamento inicial.

Essa preocupação torna-se especialmente importante diante de extrações, desgastes extensos, intervenções cirúrgicas e outros procedimentos que modificam definitivamente determinadas estruturas. Antes de realizá-los, é necessário avaliar suas alternativas e consequências. O objetivo não é evitar intervenções necessárias, mas assegurar que sejam fundamentadas em diagnóstico adequado e objetivos claramente estabelecidos. O procedimento pode terminar para o profissional, mas suas consequências continuam na vida do paciente.

10.12 — A Odontologia que organiza

A desorganização odontológica pode resultar de diferentes fatores: indicações inadequadas, falhas técnicas, aceitação de resultados insuficientes, ausência de diagnóstico abrangente, sequência terapêutica incorreta ou falta de continuidade entre intervenções realizadas ao longo da vida. Essas condições podem atuar isoladamente ou combinar-se, produzindo consequências de diferentes magnitudes. Reconhecer suas origens permite compreender que a qualidade odontológica depende de uma responsabilidade mais abrangente do que a execução individual dos procedimentos.

Essa constatação não diminui o valor das especialidades. A Dentística, a Ortodontia, a Periodontia, a Endodontia, a Prótese, a Implantodontia e as demais áreas oferecem conhecimentos e recursos indispensáveis. O problema não está na especialização do conhecimento, mas na possibilidade de que suas intervenções sejam conduzidas sem uma referência comum. A integração não exige que um único profissional execute todos os procedimentos, mas que as decisões necessárias sejam compatíveis com os objetivos estabelecidos para o paciente.

Dentro do T.O.I., essa referência é construída a partir do diagnóstico e das Metas Terapêuticas. A definição da condição desejada permite selecionar intervenções, estabelecer prioridades, organizar a sequência e avaliar os resultados. A competência técnica continua indispensável, mas passa a integrar uma responsabilidade maior: assegurar que cada procedimento contribua adequadamente para o tratamento como um todo. Assim como na construção de uma parede, não basta utilizar bons materiais e executar corretamente cada etapa; é necessário compreender o projeto que orienta o conjunto.

A mesma Odontologia que pode desorganizar também possui os conhecimentos necessários para organizar. A diferença está na qualidade do diagnóstico, na adequação das indicações, na integração das especialidades, na competência técnica e na responsabilidade com as consequências futuras. Entretanto, permanece uma questão: se existem conhecimentos científicos e recursos capazes de orientar tratamentos adequados, por que determinadas práticas continuam favorecendo intervenções fragmentadas e decisões excessivamente concentradas na realização de procedimentos?

Para compreender essa contradição, é necessário examinar a terceira dimensão do problema.

A Biologia pode degradar. A Odontologia pode desorganizar. E o sistema pode estimular.

 


Dr. Adriano Lia Mondelli