PARTE IV — O T.O.I. AO LONGO DA VIDA
B — NASCIMENTO E DENTIÇÃO DECÍDUA
CAPÍTULO 39 — DOS 5 AOS 6 ANOS: A PREPARAÇÃO PARA A DENTIÇÃO MISTA
Preparar a primeira grande transição: preservar a dentição decídua, avaliar o espaço disponível e reconhecer os acontecimentos de erupção e esfoliação que determinam o início da dentição mista.
39.1 — A última etapa antes da dentição mista
Entre os cinco e os seis anos de vida, a criança se aproxima de uma das transformações mais importantes do desenvolvimento odontológico: o início da dentição mista. Depois de um período em que os vinte dentes decíduos constituíram a dentição funcional, os primeiros dentes permanentes começam a se aproximar de sua erupção clínica, preparando uma nova organização das arcadas.
Na Classificação Clínica da Dentição Decídua — Filosofia Mondelli, esse período corresponde, habitualmente, à etapa final da Fase Passiva da Dentição Decídua, iniciada após a conclusão da erupção dos segundos molares decíduos.
A classificação proposta pela Filosofia Mondelli organiza o desenvolvimento da dentição decídua em duas fases principais.
A Fase Eruptiva da Dentição Decídua começa com a erupção clínica do primeiro dente decíduo e termina com a conclusão da erupção dos segundos molares decíduos.
A Fase Passiva da Dentição Decídua começa após a conclusão da erupção dos segundos molares decíduos e permanece até o primeiro acontecimento clínico que caracteriza o início da dentição mista.
Esse acontecimento pode ocorrer de duas maneiras: pela erupção clínica do primeiro dente permanente ou pela esfoliação fisiológica do primeiro dente decíduo, prevalecendo aquele que ocorrer primeiro.
Portanto, na Filosofia Mondelli, a esfoliação fisiológica do primeiro dente decíduo já determina o início da dentição mista, mesmo que nenhum dente permanente tenha erupcionado clinicamente.
Não é necessário aguardar a coexistência clínica das duas dentições para reconhecer essa mudança de fase.
A denominação Fase Passiva não significa ausência de desenvolvimento. Durante esse período, o crescimento craniofacial continua, os dentes permanentes prosseguem em sua formação intraóssea, as raízes dos dentes decíduos podem iniciar processos fisiológicos de reabsorção e as relações funcionais e oclusais permanecem sujeitas a modificações.
O termo identifica uma relativa estabilidade dos acontecimentos de erupção e esfoliação clinicamente observáveis.
Essa transformação não ocorre de maneira idêntica em todas as crianças. Algumas apresentam os primeiros acontecimentos de transição antes dos seis anos, enquanto outras os apresentam posteriormente.
O desenvolvimento deve ser interpretado de acordo com o Compasso do Paciente, considerando especialmente a idade dentária clínica, sem utilizar a idade cronológica como critério exclusivo.
O T.O.I. compreende essa fase como um período de preparação. A finalidade é preservar a saúde da dentição decídua, revisar as condições de espaço previamente documentadas e reconhecer as necessidades preventivas que surgirão com a chegada dos primeiros dentes permanentes.
A transição não deve começar sem que o profissional conheça as condições da dentição que será progressivamente substituída.
39.2 — Primeira etapa: revisar a saúde da dentição decídua
A primeira responsabilidade clínica consiste em avaliar a integridade dos dentes decíduos antes do início da dentição mista.
A presença de lesões de cárie, alterações pulpares, perdas precoces ou restaurações comprometidas pode interferir nas condições de saúde, função e espaço necessárias à substituição dentária.
Os molares decíduos merecem atenção especial porque permanecerão nas arcadas durante vários anos, mesmo após a erupção dos primeiros molares e incisivos permanentes.
Sua preservação contribui para a mastigação, para a manutenção dos contatos proximais e para a organização das condições de espaço.
A avaliação também deve considerar as condições de higiene, a exposição aos fatores de risco e a efetividade das medidas preventivas anteriormente instituídas.
Quando existem doenças ou alterações relevantes, as condutas devem ser estabelecidas conforme o diagnóstico, procurando evitar que condições tratáveis comprometam a transição.
É importante diferenciar a esfoliação fisiológica, decorrente do processo normal de substituição dentária, da perda precoce provocada por cárie, traumatismo, extração ou outras condições patológicas.
Na classificação proposta pela Filosofia Mondelli, o acontecimento que pode determinar o início da dentição mista é a esfoliação fisiológica, e não qualquer perda de um dente decíduo.
Essa distinção evita interpretar uma perda dentária patológica como sinal de maturação da dentição.
Durante a etapa final da Fase Passiva, a preservação da dentição decídua integra o Ciclo Construtivo do T.O.I.
A prevenção adequada, o tratamento oportuno e a manutenção das estruturas existentes contribuem para estabelecer condições favoráveis às fases seguintes.
Esse processo se contrapõe à Desestruturação em Cascata, na qual doenças não controladas, perdas precoces e alterações de espaço podem produzir consequências sucessivas durante o desenvolvimento.
O T.O.I. procura iniciar a dentição mista com a dentição decídua em condições saudáveis, reconhecendo que preservar os dentes presentes é parte fundamental da preparação para aqueles que ainda irão erupcionar.
39.3 — Segunda etapa: recuperar a classificação inicial das arcadas
A classificação dos arcos decíduos realizada entre os três e os quatro anos constitui uma referência importante para a preparação da dentição mista.
O Tipo I de Baume corresponde às arcadas com diastemas; o Tipo II de Baume, às arcadas sem diastemas; e o Tipo III — Modificação Mondelli, àquelas que apresentam apinhamento na dentição decídua.
Nessa etapa, o profissional deve recuperar os registros anteriores e compará-los com as condições atuais.
A classificação original não deve ser substituída ou esquecida, pois representa a organização das arcadas quando a dentição decídua estava estabelecida.
As modificações posteriores precisam ser registradas separadamente, permitindo compreender a evolução individual.
A avaliação deve considerar a maxila e a mandíbula de maneira independente.
Uma criança pode apresentar espaços favoráveis em uma arcada e ausência de diastemas ou apinhamento na outra.
Essas diferenças são relevantes para interpretar as condições que antecedem a erupção dos dentes permanentes.
É fundamental distinguir a classificação dos espaços da Classificação Clínica da Dentição Decídua — Filosofia Mondelli.
A classificação de Baume e a Modificação Mondelli descrevem a distribuição dos espaços e a presença ou ausência de apinhamento nas arcadas decíduas.
A classificação em Fase Eruptiva e Fase Passiva identifica o estágio clínico de desenvolvimento da dentição, utilizando como referência os acontecimentos de erupção e esfoliação.
São classificações diferentes, mas complementares.
Uma criança pode apresentar arco Tipo I, II ou III durante a Fase Passiva, pois a distribuição dos espaços não determina a fase de desenvolvimento dentário.
O T.O.I. procura transformar a classificação dos arcos em informação longitudinal.
Seu significado clínico não está apenas em identificar um tipo, mas em compreender como aquela condição poderá participar da organização da dentição mista.
39.4 — Terceira etapa: avaliar o espaço disponível para os incisivos permanentes
A erupção dos incisivos permanentes representa uma das primeiras situações em que a disponibilidade de espaço das arcadas decíduas será colocada à prova.
Como os incisivos permanentes geralmente apresentam dimensões mesiodistais maiores que seus predecessores, sua acomodação depende da combinação entre os espaços existentes, o desenvolvimento das arcadas e as características individuais.
A avaliação deve considerar a presença de diastemas, o alinhamento dos dentes decíduos e a forma das arcadas.
Nos casos em que existem sinais de discrepância, o profissional pode recorrer a métodos clínicos e documentais apropriados para compreender melhor a relação entre o espaço disponível e as dimensões dos dentes que irão erupcionar.
Entretanto, a quantidade de espaço observada na dentição decídua não permite determinar isoladamente o alinhamento futuro.
O desenvolvimento intercanino, as dimensões dos sucessores e outras modificações da dentição mista poderão influenciar o resultado.
A documentação realizada durante a Fase Passiva permite estabelecer uma referência anterior aos acontecimentos de substituição dentária.
Essa informação será importante para interpretar as condições encontradas quando os incisivos permanentes começarem a erupcionar.
Quando a esfoliação fisiológica de um incisivo decíduo ocorre antes da erupção clínica do sucessor, esse acontecimento já determina o início da dentição mista segundo a Filosofia Mondelli.
A avaliação do espaço deve prosseguir normalmente, mesmo que o dente permanente ainda não esteja presente na cavidade bucal.
O T.O.I. procura reconhecer antecipadamente as condições favoráveis e desfavoráveis, preparando o acompanhamento dos incisivos permanentes sem estabelecer indicações terapêuticas apenas com base na aparência dos arcos decíduos.
39.5 — Quarta etapa: preparar a chegada dos primeiros molares permanentes
Os primeiros molares permanentes geralmente erupcionam na região posterior aos segundos molares decíduos, sem substituir qualquer dente da primeira dentição.
Essa característica precisa ser compreendida pelos responsáveis, pois a ausência de esfoliação prévia pode fazer com que a chegada desses dentes passe despercebida.
Na Classificação Clínica da Dentição Decídua — Filosofia Mondelli, a erupção clínica do primeiro molar permanente, quando representa o primeiro acontecimento de transição, determina o encerramento da Fase Passiva e o início da dentição mista.
Entretanto, quando a esfoliação fisiológica de um dente decíduo ocorre antes da erupção desse molar, a dentição mista já foi iniciada.
Assim, o primeiro molar permanente representa uma das possibilidades de início da dentição mista, mas não constitui uma exigência obrigatória para sua caracterização.
A orientação deve explicar onde os primeiros molares permanentes irão surgir e por que sua proteção exige atenção desde o início.
Durante a erupção, a posição parcialmente exposta da coroa pode dificultar a higiene, enquanto a anatomia oclusal pode favorecer a retenção de biofilme.
A avaliação preventiva deve considerar o risco individual de cárie, a morfologia das fossas e fissuras e as condições de erupção.
O selamento oclusal, quando indicado, deverá ser planejado conforme as possibilidades de isolamento e as características clínicas do dente.
O T.O.I. procura assegurar que a chegada dos primeiros molares permanentes seja reconhecida simultaneamente como um acontecimento importante do desenvolvimento dentário e como uma oportunidade preventiva.
A proteção desses dentes será aprofundada no capítulo dedicado ao Primeiro Período Transitório da Dentição Mista.
39.6 — O significado do arco Tipo I na preparação da dentição mista
Nos arcos Tipo I de Baume, a presença de diastemas representa uma condição inicial geralmente mais favorável à acomodação dos incisivos permanentes.
Esses espaços podem contribuir para compensar parte da diferença dimensional entre os dentes decíduos e seus sucessores.
Durante a preparação para a dentição mista, o profissional deve verificar a preservação dos diastemas e identificar fatores que possam ter modificado sua distribuição.
Perdas precoces, lesões proximais extensas ou alterações de posição podem interferir na disponibilidade de espaço originalmente observada.
Entretanto, o Tipo I não garante que a dentição permanente apresentará alinhamento adequado.
A diferença entre as dimensões dos incisivos decíduos e permanentes, o crescimento das arcadas e outras características individuais poderão modificar o resultado.
Durante a Fase Passiva, o acompanhamento desses espaços permite preservar informações sobre as condições existentes antes do início da substituição dentária.
O T.O.I. procura reconhecer o Tipo I como uma condição favorável a ser preservada e acompanhada, sem dispensar a avaliação clínica durante a erupção dos dentes permanentes.
39.7 — O significado do arco Tipo II na preparação da dentição mista
Nos arcos Tipo II de Baume, a ausência de diastemas indica que os dentes decíduos estão organizados sem uma reserva aparente de espaços interdentários.
Essa característica merece atenção porque os incisivos permanentes geralmente necessitarão de maior dimensão mesiodistal para sua acomodação.
A avaliação deve verificar se o alinhamento permanece estável e se existem outras características que possam influenciar a disponibilidade de espaço.
A forma da arcada, suas dimensões e o desenvolvimento craniofacial devem ser considerados em conjunto.
A ausência de diastemas, entretanto, não representa uma indicação automática de intervenção.
Determinadas modificações próprias da dentição mista poderão contribuir para acomodar os incisivos permanentes, e o resultado dependerá das condições individuais.
A documentação realizada durante a Fase Passiva permite comparar a organização inicial das arcadas com as condições que serão observadas durante a primeira transição.
O T.O.I. procura utilizar o Tipo II como um sinal para intensificar a atenção diagnóstica durante essa etapa, reconhecendo precocemente possíveis discrepâncias sem antecipar tratamentos desnecessários.
39.8 — O significado do arco Tipo III — Modificação Mondelli
O Tipo III — Modificação Mondelli corresponde à presença de apinhamento na dentição decídua.
Diferentemente do Tipo II, em que os dentes estão próximos, mas alinhados, o Tipo III demonstra que a relação entre as dimensões dentárias e o espaço disponível já apresenta uma discrepância clinicamente perceptível.
Essa condição merece atenção especial na preparação para a dentição mista.
Como os incisivos permanentes geralmente são maiores que os decíduos, o apinhamento preexistente pode representar um sinal de maior risco de dificuldade de acomodação dos sucessores.
Entretanto, o diagnóstico deve considerar a natureza e a extensão da discrepância, distinguindo o apinhamento verdadeiro de alterações isoladas de posição ou de outras condições dentárias.
A presença do Tipo III não determina obrigatoriamente a necessidade de intervenção imediata, nem permite prever com exatidão a gravidade do apinhamento permanente.
Durante a Fase Passiva, o acompanhamento dessa condição permite identificar sua evolução antes dos acontecimentos de substituição dentária.
A documentação deve registrar a posição dos dentes, as rotações, as sobreposições e outras características relevantes para a comparação posterior.
O T.O.I. procura reconhecer o Tipo III como uma informação relevante para o planejamento longitudinal.
A finalidade é preparar o acompanhamento e avaliar oportunamente as possibilidades terapêuticas, evitando que a discrepância seja identificada apenas quando os dentes permanentes já apresentarem alterações importantes de alinhamento.
39.9 — A relação entre os três tipos de arco e o risco de apinhamento
A classificação dos arcos decíduos permite estabelecer uma interpretação inicial da disponibilidade de espaço.
De maneira geral, o Tipo I apresenta condições mais favoráveis, o Tipo II exige atenção à ausência de diastemas e o Tipo III indica a presença de apinhamento já na primeira dentição.
Essa organização contribui para reconhecer diferentes situações clínicas, mas não constitui um método isolado de previsão da dentição permanente.
O desenvolvimento posterior depende das dimensões dentárias, do crescimento das arcadas, das relações oclusais e das modificações que ocorrerão durante a substituição.
A interpretação também deve considerar que as condições podem ser diferentes entre maxila e mandíbula.
A avaliação separada das arcadas permite reconhecer onde existe maior necessidade de acompanhamento e evita generalizações sobre o desenvolvimento de toda a dentição.
A classificação inicial deve ser preservada como referência longitudinal.
A evolução clínica poderá confirmar a manutenção de condições favoráveis ou revelar novas necessidades diagnósticas.
O T.O.I. procura utilizar a classificação como parte do diagnóstico, integrando-a às demais informações clínicas para identificar oportunidades de prevenção e planejamento.
39.10 — As relações oclusais antes da chegada dos primeiros molares permanentes
A dentição decídua estabelecida permite avaliar as relações oclusais que antecedem a erupção dos primeiros molares permanentes.
Os planos terminais dos segundos molares decíduos, as relações caninas, os trespasses horizontal e vertical e as condições transversais constituem referências importantes para compreender a organização existente.
Essas características poderão influenciar as relações iniciais dos primeiros molares permanentes, embora não determinem isoladamente a oclusão definitiva.
O crescimento craniofacial e as modificações próprias da dentição mista poderão alterar determinadas relações.
A presença de mordidas cruzadas, desvios funcionais ou outras alterações relevantes deve ser avaliada conforme suas características e possibilidades terapêuticas.
Em determinadas situações, o Período Ideal de uma intervenção pode ocorrer antes da erupção completa dos dentes permanentes.
A avaliação durante a etapa final da Fase Passiva permite estabelecer uma referência funcional anterior às transformações da dentição mista.
O T.O.I. procura reconhecer as condições oclusais existentes e identificar aquelas que merecem atenção, evitando que a transição seja acompanhada exclusivamente pela sequência eruptiva.
39.11 — A preservação do espaço durante a transição
A preservação dos dentes decíduos constitui uma das principais medidas para manter as condições de espaço até a erupção dos sucessores permanentes.
Especialmente nos segmentos posteriores, perdas precoces podem permitir movimentações dentárias e modificar o comprimento disponível das arcadas.
Quando ocorre perda prematura de um dente decíduo, a necessidade de manutenção de espaço deve ser avaliada individualmente.
A decisão depende do elemento perdido, do estágio de desenvolvimento dos sucessores, das relações oclusais e das condições de espaço presentes.
É importante distinguir a manutenção de espaço decorrente de perdas precoces do aproveitamento planejado do espaço livre de Nance, que se relaciona à substituição fisiológica dos caninos e molares decíduos por caninos e pré-molares permanentes.
Esse segundo mecanismo será discutido nos capítulos referentes aos períodos posteriores da dentição mista.
Também é necessário distinguir a perda precoce patológica da esfoliação fisiológica.
A esfoliação fisiológica representa um acontecimento esperado no processo de substituição dentária e, segundo a classificação da Filosofia Mondelli, pode determinar o início da dentição mista.
A perda precoce por doença, traumatismo ou extração não deve ser utilizada como marco de desenvolvimento, pois não representa necessariamente maturação dentária.
Durante a Fase Passiva, a preservação das condições de espaço integra o Ciclo Construtivo do T.O.I.
A manutenção da saúde dos dentes decíduos e o tratamento oportuno das alterações procuram evitar perdas que possam comprometer o desenvolvimento posterior.
Em contrapartida, perdas precoces não acompanhadas e alterações de espaço podem contribuir para a Desestruturação em Cascata, criando necessidades adicionais nas fases seguintes.
O T.O.I. procura preservar as condições existentes e evitar perdas desnecessárias de espaço, reconhecendo que as decisões tomadas durante a dentição decídua podem influenciar as possibilidades de tratamento futuro.
39.12 — A Prevenção Recuperativa antes da dentição mista
Nem todas as crianças chegam aos cinco ou seis anos tendo recebido acompanhamento odontológico desde a erupção do primeiro dente.
Algumas apresentam medidas preventivas incompletas, doenças não tratadas ou ausência de documentação anterior.
Nessas situações, o T.O.I. propõe a aplicação da Prevenção Recuperativa.
A finalidade é identificar oportunidades preventivas que não foram aproveitadas e realizar, no presente, as medidas que ainda possuem indicação clínica.
Isso inclui estabelecer hábitos adequados de higiene, controlar fatores de risco, tratar doenças existentes e avaliar as condições de espaço e função.
A ausência de uma classificação anterior dos arcos decíduos não impede sua avaliação atual.
Entretanto, o profissional deve distinguir aquilo que pode ser observado no presente daquilo que não foi documentado durante o desenvolvimento, evitando reconstruir informações históricas sem fundamento.
Também é necessário reconhecer o estágio clínico atual.
A criança poderá ainda se encontrar na Fase Passiva ou já apresentar o acontecimento que determina o início da dentição mista.
Quando a esfoliação fisiológica do primeiro dente decíduo já ocorreu, a dentição mista deve ser reconhecida como iniciada, mesmo que nenhum permanente tenha erupcionado clinicamente.
A Prevenção Recuperativa não significa recuperar biologicamente todas as oportunidades perdidas.
Algumas possibilidades de prevenção ou intervenção pertenciam a períodos anteriores e não podem ser reproduzidas nas mesmas condições.
Seu objetivo é reconhecer aquilo que ainda pode ser preservado, controlado ou tratado adequadamente.
O T.O.I. procura assegurar que a chegada tardia ao acompanhamento não represente a continuidade de oportunidades perdidas.
A preparação para a dentição mista deve começar a partir das condições reais encontradas, respeitando as possibilidades preventivas e terapêuticas ainda existentes.
39.13 — O Período Ideal e o Compasso do Paciente
A transição para a dentição mista demonstra a importância de reconhecer as diferenças entre idade cronológica e idade dentária.
Algumas crianças iniciam a erupção dos primeiros molares permanentes ou a substituição dos incisivos antes dos seis anos, enquanto outras apresentam essas modificações posteriormente.
Na Filosofia Mondelli, a idade dentária clínica é interpretada principalmente pelos acontecimentos de erupção e esfoliação dentária.
O Compasso do Paciente considera três dimensões complementares: idade cronológica, idade dentária e idade esquelética.
A idade cronológica informa o tempo transcorrido desde o nascimento.
A idade dentária permite reconhecer o estágio de desenvolvimento da dentição, especialmente pelos acontecimentos clínicos de erupção e esfoliação.
A idade esquelética contribui para interpretar o estágio de maturação do indivíduo, particularmente quando o planejamento envolve crescimento craniofacial e oportunidades terapêuticas relacionadas ao desenvolvimento ósseo.
Essas três dimensões não necessariamente evoluem de maneira simultânea.
Duas crianças com a mesma idade cronológica podem apresentar estágios dentários diferentes, sem que essa diferença represente obrigatoriamente uma condição patológica.
Na Classificação Clínica da Dentição Decídua — Filosofia Mondelli, o encerramento da Fase Passiva e o início da dentição mista são determinados pelo primeiro dos seguintes acontecimentos:
-
Erupção clínica do primeiro dente permanente.
-
Esfoliação fisiológica do primeiro dente decíduo.
O primeiro acontecimento observado determina a mudança de fase.
A esfoliação fisiológica isolada já caracteriza o início da dentição mista, mesmo que nenhum dente permanente esteja clinicamente erupcionado.
A idade cronológica permanece como referência, mas não determina isoladamente a mudança de fase.
O Período Ideal orienta a identificação do momento mais adequado para cada intervenção, enquanto o Compasso do Paciente permite reconhecer o estágio biológico e clínico no qual essas oportunidades se apresentam.
O Período Ideal da prevenção acompanha a chegada dos dentes permanentes.
As medidas de higiene e proteção devem ser instituídas conforme os dentes erupcionam e apresentam condições para sua realização.
Da mesma maneira, intervenções relacionadas ao espaço e à oclusão devem respeitar o diagnóstico e as possibilidades biológicas de cada etapa.
O T.O.I. procura distinguir a preparação do tratamento.
Reconhecer uma possível discrepância antes da dentição mista não significa que a intervenção deva ocorrer imediatamente, mas permite planejar o acompanhamento e identificar o momento adequado para agir.
39.14 — A documentação e o planejamento da primeira transição
A documentação clínica deve reunir as informações obtidas durante o acompanhamento da dentição decídua, incluindo a classificação dos arcos, as condições de espaço, as relações oclusais e o histórico de saúde dos dentes.
A comparação desses registros permite compreender como as arcadas se organizaram antes da chegada dos primeiros permanentes.
Fotografias clínicas e outros recursos indicados podem contribuir para estabelecer uma referência imediatamente anterior à transição.
Quando existem discrepâncias relevantes, exames complementares devem ser selecionados conforme sua necessidade diagnóstica, evitando solicitações indiscriminadas.
O registro deve identificar a fase clínica da dentição e, quando observado, o acontecimento que encerrou a Fase Passiva.
Esse acontecimento deve ser documentado como o marco de início da dentição mista, seja pela erupção clínica de um permanente, seja pela esfoliação fisiológica de um decíduo.
Quando a esfoliação ocorre primeiro, o registro deve identificar o dente envolvido, a data ou o período aproximado do acontecimento e as condições clínicas relacionadas.
A ausência de erupção clínica imediata do sucessor permanente não modifica a classificação da fase, embora a sequência eruptiva deva continuar sendo acompanhada.
O planejamento deve identificar as condições que exigirão maior atenção durante a erupção dos incisivos e primeiros molares permanentes.
Nos arcos Tipo I, a preservação dos espaços constitui uma referência favorável; nos Tipos II e III, a avaliação da acomodação dos incisivos assume importância particular.
O T.O.I. procura iniciar a dentição mista com informações organizadas, permitindo que o acompanhamento da erupção seja fundamentado na história individual do paciente.
39.15 — O Controle Ideal durante a preparação para a dentição mista
O Controle Ideal deve acompanhar a aproximação dos primeiros dentes permanentes e a manutenção da saúde da dentição decídua.
A periodicidade das avaliações depende do risco individual de cárie, das condições eruptivas, das relações oclusais e da presença de características que exijam acompanhamento mais próximo.
Durante os retornos, o profissional deve verificar a integridade dos dentes decíduos, a evolução das condições de espaço e os sinais de aproximação da erupção permanente.
A orientação aos responsáveis deve incluir o reconhecimento dos primeiros molares permanentes, que surgirão posteriormente aos segundos molares decíduos sem substituí-los.
O Controle Ideal também deve identificar o acontecimento clínico que determina o encerramento da Fase Passiva.
Quando ocorrer a erupção clínica do primeiro permanente ou a esfoliação fisiológica do primeiro decíduo, a dentição deverá ser reconhecida como mista segundo a Filosofia Mondelli.
A classificação dos arcos pode contribuir para definir quais condições merecem maior atenção, mas não deve estabelecer isoladamente a frequência das consultas.
O acompanhamento precisa considerar o conjunto das necessidades clínicas.
O T.O.I. procura assegurar que a primeira transição seja acompanhada desde seu início, evitando que os dentes permanentes permaneçam sem proteção ou que alterações de espaço sejam reconhecidas tardiamente.
39.16 — A Matriz Clínica do T.O.I. dos 5 aos 6 anos
A Matriz Clínica organiza o atendimento por meio de suas nove perguntas fundamentais, aplicadas à etapa final da Fase Passiva e ao início da dentição mista.
O que orientar? Explicar aos responsáveis a aproximação da dentição mista, a importância dos primeiros dentes permanentes e os acontecimentos que caracterizam a mudança de fase.
O que observar? Acompanhar as condições eruptivas, a disponibilidade de espaço, as relações oclusais e os primeiros sinais clínicos de erupção permanente ou esfoliação fisiológica.
O que documentar? Registrar a situação imediatamente anterior à transição, comparar as informações anteriores e identificar o acontecimento que encerra a Fase Passiva e inicia a dentição mista.
O que diagnosticar? Reconhecer doenças, alterações funcionais, possíveis discrepâncias de espaço, condições eruptivas relevantes e perdas dentárias que não correspondam à esfoliação fisiológica.
O que prevenir? Preservar os dentes decíduos e preparar a proteção dos permanentes recém-erupcionados.
O que controlar? Acompanhar a evolução das condições identificadas, a manutenção da saúde e os acontecimentos de erupção e esfoliação que caracterizam a dentição mista.
O que tratar? Realizar as intervenções indicadas pelo diagnóstico, respeitando as necessidades individuais.
Qual é o Período Ideal? Reconhecer a oportunidade das medidas preventivas e terapêuticas, considerando o estágio clínico de desenvolvimento e as condições biológicas presentes.
O que não podemos deixar passar? O acontecimento que encerra a Fase Passiva e inicia a dentição mista, a chegada dos primeiros molares permanentes, a substituição dos incisivos e as condições de espaço que poderão influenciar a organização das arcadas.
As nove perguntas permanecem constantes durante toda a vida, mas suas respostas se modificam conforme a fase clínica da dentição e as necessidades individuais.
39.17 — A Tríade do T.O.I. dos 5 aos 6 anos
A Prevenção concentra-se na manutenção da saúde da dentição decídua e na preparação para proteger os primeiros dentes permanentes.
A integridade dos molares decíduos contribui para a preservação das condições de espaço, enquanto a orientação aos responsáveis permite reconhecer precocemente os dentes que começarão a erupcionar.
A Função envolve a avaliação das relações oclusais e das condições que poderão influenciar a organização da dentição mista.
A Estética deve ser interpretada considerando que a presença de diastemas na dentição decídua pode representar uma característica favorável, enquanto o alinhamento aparentemente adequado não garante ausência de discrepâncias futuras.
O equilíbrio da Tríade exige que a avaliação considere saúde, função e desenvolvimento.
A preparação para a dentição mista não deve ser orientada apenas pela aparência dos dentes, mas pela compreensão das condições que poderão favorecer uma dentição permanente saudável e funcional.
A passagem da Fase Passiva para a dentição mista modifica as necessidades clínicas, mas não altera os princípios de Prevenção, Função e Estética que orientam o T.O.I.
39.18 — O que não podemos deixar passar dos 5 aos 6 anos
A primeira responsabilidade é preservar a saúde da dentição decídua antes do início da substituição.
Lesões de cárie, perdas precoces e outras alterações precisam ser reconhecidas e conduzidas conforme suas consequências para a função e para a manutenção do espaço.
A segunda responsabilidade é recuperar a classificação dos arcos decíduos e avaliar sua evolução.
Os Tipos I e II de Baume e o Tipo III — Modificação Mondelli devem ser considerados na interpretação das condições de espaço, especialmente em relação à futura erupção dos incisivos permanentes.
A terceira responsabilidade é preparar a proteção dos primeiros molares permanentes.
Os responsáveis precisam compreender que esses dentes surgem posteriormente aos segundos molares decíduos e que sua erupção pode ocorrer sem a queda de qualquer dente.
A quarta responsabilidade é reconhecer o acontecimento que encerra a Fase Passiva da dentição decídua e inicia a dentição mista.
Esse acontecimento pode ser a erupção clínica do primeiro dente permanente ou a esfoliação fisiológica do primeiro dente decíduo, conforme o evento que ocorrer primeiro.
A quinta responsabilidade é diferenciar a esfoliação fisiológica das perdas precoces de origem patológica ou traumática.
Essa distinção é necessária para interpretar corretamente o desenvolvimento e evitar que acontecimentos decorrentes de doença sejam utilizados como critérios de maturação dentária.
A sexta responsabilidade é documentar as condições oclusais e identificar alterações que possam exigir acompanhamento ou intervenção.
A presença de mordidas cruzadas, desvios funcionais e discrepâncias relevantes deve ser interpretada conforme o diagnóstico e o Período Ideal.
A sétima responsabilidade é estabelecer um plano de acompanhamento para a primeira transição, permitindo que a erupção dos dentes permanentes seja observada desde seu início e que as medidas preventivas sejam realizadas oportunamente.
Essas responsabilidades integram o Ciclo Construtivo do T.O.I., no qual a preservação da dentição decídua, a documentação e a proteção dos primeiros dentes permanentes procuram estabelecer condições favoráveis para a nova fase de desenvolvimento.
39.19 — Da dentição decídua à primeira grande transição
Entre os cinco e os seis anos, a dentição decídua se aproxima do momento em que começará a ser progressivamente substituída pelos dentes permanentes.
Na Classificação Clínica da Dentição Decídua — Filosofia Mondelli, esse período corresponde, habitualmente, à etapa final da Fase Passiva.
A Fase Eruptiva, iniciada com a erupção clínica do primeiro dente decíduo, terminou quando se completou a erupção dos segundos molares decíduos.
A partir desse acontecimento, a dentição permaneceu na Fase Passiva, caracterizada pela relativa estabilidade dos eventos de erupção e esfoliação clinicamente observáveis.
O encerramento dessa fase ocorre com o primeiro acontecimento clínico que caracteriza o início da dentição mista.
Esse acontecimento pode ser a erupção clínica do primeiro dente permanente ou a esfoliação fisiológica do primeiro dente decíduo, conforme o evento que ocorrer primeiro.
Na Filosofia Mondelli, a esfoliação fisiológica isolada já caracteriza o início da dentição mista, mesmo antes da erupção clínica do sucessor permanente.
Essa definição permite reconhecer o início da nova fase pelo acontecimento clínico de desenvolvimento, sem depender exclusivamente da idade cronológica.
A partir desse marco, o desenvolvimento poderá ser acompanhado conforme os períodos descritos por Van der Linden: Primeiro Período Transitório, Período Intertransitório e Segundo Período Transitório.
A Classificação Clínica da Dentição Decídua — Filosofia Mondelli e a classificação da dentição mista de Van der Linden organizam etapas diferentes e complementares do desenvolvimento dentário.
A primeira procura reconhecer os acontecimentos que caracterizam a erupção e a manutenção da dentição decídua. A segunda organiza os períodos de transição e relativa estabilidade durante a substituição pelos dentes permanentes.
O T.O.I. procura preparar essa transição a partir das informações construídas nos anos anteriores.
A classificação de Baume e a Modificação Mondelli permitem reconhecer diferentes condições iniciais de espaço, enquanto a documentação longitudinal mostra como essas características evoluíram durante a dentição decídua.
O conjunto dessas informações contribui para planejar o acompanhamento, sem substituir o diagnóstico que será realizado durante a erupção permanente.
A passagem para a dentição mista não representa o abandono da primeira dentição.
Os dentes decíduos remanescentes continuarão desempenhando funções importantes, e sua preservação deverá acompanhar a proteção dos permanentes recém-erupcionados.
A continuidade entre essas duas responsabilidades constitui parte essencial do Tratamento Odontológico Ideal.
O acompanhamento adequado durante a Fase Passiva e o reconhecimento oportuno do início da dentição mista integram o Ciclo Construtivo do T.O.I., contribuindo para preservar as estruturas dentárias e estabelecer condições favoráveis às etapas seguintes.
Preparar a dentição mista significa conhecer a dentição que será substituída, preservar suas condições favoráveis e reconhecer o primeiro acontecimento de erupção permanente ou esfoliação fisiológica decídua que encerra a Fase Passiva e inaugura uma nova etapa do desenvolvimento odontológico.
Próximo capítulo — Capítulo 40: O T.O.I. na Dentição Mista.
Dr. Adriano Lia Mondelli
