Instituto Mondelli de Odontologia
Livro do TOI

Capítulo 40 — O T.O.I. na Dentição Mista

O Tratamento Odontológico Ideal (T.O.I.) reconhece a dentição mista como uma etapa fundamental de transformação, iniciada pela erupção clínica do primeiro dente permanente ou pela esfoliação fisiológica do primeiro dente decíduo, conforme o acontecimento que ocorrer primeiro. Seu desenvolvimento é organizado nos três períodos descritos por Van der Linden: Primeiro Período Transitório, Período Intertransitório e Segundo Período Transitório. A Prevenção prioriza a proteção dos permanentes recém-erupcionados, especialmente pelo selamento de fossas e fissuras quando indicado, enquanto o acompanhamento longitudinal avalia os espaços, as relações oclusais e o desenvolvimento intraósseo dos dentes ainda não erupcionados. Merecem atenção especial os caninos superiores permanentes, cuja trajetória eruptiva pode comprometer as raízes dos incisivos laterais superiores. A fase do patinho feio, descrita por Broadbent, exige distinguir alterações transitórias de situações com risco de reabsorção radicular. O Compasso do Paciente, o Período Ideal, a Prevenção Recuperativa e o Controle Ideal orientam o acompanhamento individualizado, integrando o Ciclo Construtivo do T.O.I. A dentição mista deve ser compreendida como uma oportunidade de proteger aquilo que está chegando, preservar aquilo que permanece e reconhecer precocemente alterações capazes de comprometer o desenvolvimento da dentição permanente. Dr. Adriano Lia Mondelli

Clínica Mondelli 21 min de leitura
Capítulo 40 — O T.O.I. na Dentição Mista

PARTE IV — O T.O.I. AO LONGO DA VIDA

C — DENTIÇÃO MISTA

CAPÍTULO 40 — O T.O.I. NA DENTIÇÃO MISTA

Uma dentição em transformação: reconhecer o início da substituição dentária, proteger os dentes permanentes desde sua erupção, compreender o desenvolvimento e identificar as oportunidades terapêuticas.

40.1 — Uma nova etapa do desenvolvimento odontológico

A dentição mista representa uma das fases mais dinâmicas do desenvolvimento odontológico. Depois de um período em que a dentição decídua permaneceu relativamente estabelecida, inicia-se uma sequência de transformações caracterizada pela erupção dos dentes permanentes e pela substituição progressiva dos dentes decíduos.

Na Classificação Clínica da Dentição Decídua — Filosofia Mondelli, a dentição decídua é organizada em duas fases: Fase Eruptiva e Fase Passiva.

A Fase Eruptiva começa com a erupção clínica do primeiro dente decíduo e termina com a conclusão da erupção dos segundos molares decíduos. A partir desse acontecimento, inicia-se a Fase Passiva, caracterizada pela relativa estabilidade dos eventos eruptivos e de substituição dentária.

A Fase Passiva termina com o primeiro acontecimento clínico que caracteriza o início da dentição mista: a erupção clínica do primeiro dente permanente ou a esfoliação fisiológica do primeiro dente decíduo, conforme o evento que ocorrer primeiro.

Portanto, na Filosofia Mondelli, a esfoliação fisiológica do primeiro dente decíduo já determina o início da dentição mista, independentemente de haver um dente permanente clinicamente erupcionado.

Esse critério permite reconhecer a mudança de fase pelo acontecimento biológico, e não exclusivamente pela idade cronológica ou pela presença simultânea das duas dentições.

Durante os anos seguintes, dentes decíduos e permanentes passarão a coexistir na cavidade bucal, apresentando características anatômicas e necessidades clínicas diferentes.

Essa transição não acontece de maneira simultânea. Alguns dentes permanentes surgem enquanto outros permanecem em desenvolvimento, e os dentes decíduos continuam desempenhando funções importantes até sua substituição. Ao mesmo tempo, as arcadas dentárias e as estruturas craniofaciais seguem seu processo de crescimento, modificando progressivamente as relações oclusais.

O T.O.I. compreende a dentição mista como uma etapa própria do desenvolvimento, e não apenas como um intervalo entre duas dentições.

Seu acompanhamento exige diagnóstico, prevenção, interpretação funcional e reconhecimento das oportunidades terapêuticas. O objetivo é preservar a saúde e orientar o desenvolvimento, respeitando as características individuais de cada paciente.

40.2 — Os princípios permanecem; as prioridades mudam

A chegada da dentição mista não modifica os fundamentos do Tratamento Odontológico Ideal.

A Prevenção, a Função e a Estética continuam constituindo as Metas Terapêuticas, enquanto o diagnóstico, o planejamento, a execução clínica e o Controle Ideal permanecem organizando o atendimento.

Entretanto, as prioridades clínicas se modificam.

O início da esfoliação fisiológica dos dentes decíduos e a erupção dos primeiros dentes permanentes introduzem novas necessidades de acompanhamento.

A erupção dos dentes permanentes apresenta novas superfícies suscetíveis à cárie, enquanto a substituição dos dentes decíduos modifica progressivamente os espaços e as relações oclusais.

O profissional precisa compreender essas transformações para reconhecer necessidades que não existiam anteriormente.

A filosofia permanece a mesma porque o objetivo continua sendo preservar a saúde e alcançar condições favoráveis de função e estética.

O que se modifica é a maneira de aplicar seus princípios diante de uma dentição em desenvolvimento.

Os princípios permanecem; as prioridades mudam.

40.3 — A dentição mista e seus três períodos

Didaticamente, a dentição mista pode ser organizada em três períodos, conforme a classificação descrita por Van der Linden:

  • Primeiro Período Transitório;
  • Período Intertransitório;
  • Segundo Período Transitório.

Essa classificação permite compreender a sequência das principais transformações eruptivas e facilita a organização do diagnóstico e do planejamento.

O Primeiro Período Transitório caracteriza-se principalmente pela erupção dos primeiros molares permanentes e pela substituição dos incisivos decíduos.

O Período Intertransitório corresponde a uma fase de relativa estabilidade eruptiva clínica, durante a qual permanecem dentes decíduos e permanentes. Entretanto, o desenvolvimento e o deslocamento intraósseo dos dentes ainda não erupcionados continuam, merecendo atenção especial os caninos superiores permanentes e suas relações com as raízes dos incisivos laterais superiores.

O Segundo Período Transitório envolve a substituição dos caninos e molares decíduos pelos respectivos sucessores permanentes, além da erupção dos segundos molares permanentes em período próximo, conforme a cronologia individual.

Esses períodos não devem ser interpretados como divisões cronológicas rígidas.

A idade em que cada transformação acontece pode variar, assim como sua sequência. A classificação organiza o desenvolvimento, enquanto o Compasso do Paciente permite reconhecer o estágio real de cada criança.

Na Filosofia Mondelli, a classificação da dentição decídua em Fase Eruptiva e Fase Passiva e a organização da dentição mista nos três períodos de Van der Linden são compreendidas como instrumentos complementares de acompanhamento do desenvolvimento dentário.

A primeira identifica os acontecimentos que caracterizam a formação e a manutenção da dentição decídua. A segunda organiza as transformações que ocorrem durante sua substituição pelos dentes permanentes.

O encerramento da Fase Passiva, definido pela erupção clínica do primeiro permanente ou pela esfoliação fisiológica do primeiro decíduo, estabelece o marco clínico de entrada na dentição mista adotado pela Filosofia Mondelli.

A partir desse marco, o acompanhamento passa a considerar as características do Primeiro Período Transitório, respeitando a sequência individual dos acontecimentos eruptivos e de esfoliação.

40.4 — A erupção permanente como oportunidade preventiva

A chegada de cada dente permanente representa uma oportunidade de prevenção.

Diferentemente dos dentes decíduos, os dentes permanentes deverão permanecer em função por toda a vida, tornando especialmente importante a preservação de suas estruturas desde os primeiros momentos de exposição ao ambiente bucal.

Durante a erupção, determinadas superfícies apresentam maior dificuldade de higienização. A posição parcial do dente, a anatomia de suas fossas e fissuras e o acúmulo de biofilme podem favorecer o desenvolvimento de lesões de cárie, principalmente em pacientes com fatores de risco associados.

O T.O.I. procura reconhecer essas condições antes que ocorram perdas de estrutura dentária.

A avaliação preventiva deve começar com a identificação do dente em erupção, de sua anatomia e de seu risco de cárie, permitindo selecionar as medidas de proteção apropriadas.

O início da dentição mista pela esfoliação fisiológica de um dente decíduo também representa uma oportunidade de orientação, mesmo que o sucessor permanente ainda não esteja clinicamente presente.

Nesse momento, o profissional deve acompanhar a sequência eruptiva e preparar as medidas preventivas que serão necessárias quando o dente permanente surgir.

A erupção de um dente permanente não deve representar apenas o aparecimento de uma nova estrutura. Deve representar também o início de sua proteção.

40.5 — O selamento dos molares permanentes

Os molares permanentes possuem superfícies oclusais com fossas e fissuras que podem apresentar maior suscetibilidade à retenção de biofilme.

Os primeiros molares permanentes merecem atenção especial porque frequentemente erupcionam por volta dos seis anos, posteriormente aos segundos molares decíduos, sem substituir qualquer dente de leite.

A indicação do selamento deve considerar o risco individual de cárie, a anatomia das superfícies oclusais e a condição clínica do dente.

Fissuras profundas e retentivas podem justificar a aplicação de selantes, especialmente quando apresentam dificuldade de higienização.

A presença de lesões iniciais não cavitadas também exige avaliação para determinar a possibilidade de abordagem não invasiva, incluindo o selamento quando indicado.

O selamento procura estabelecer uma barreira física que dificulte o acúmulo de biofilme nas regiões protegidas.

Sua finalidade é preservar o esmalte e reduzir o risco de desenvolvimento ou progressão de lesões nessas superfícies.

Entretanto, sua indicação não deve ser automática para todos os dentes, pois depende das características clínicas e do risco apresentado pelo paciente.

A proteção dos molares permanentes constitui uma das principais oportunidades preventivas da dentição mista.

Reconhecer essa oportunidade no momento adequado permite atuar antes que a necessidade de restauração se estabeleça.

40.6 — O selamento durante a erupção dentária

A erupção parcial dos molares permanentes pode representar um período de maior dificuldade preventiva.

Enquanto o dente ainda não alcançou uma posição que favoreça sua higienização, determinadas regiões oclusais permanecem mais suscetíveis ao acúmulo de biofilme.

Ao mesmo tempo, o controle da umidade pode dificultar a realização de procedimentos adesivos.

O Período Ideal para proteger essas superfícies deve considerar a necessidade clínica e a possibilidade de execução adequada.

Quando existe indicação preventiva, não é necessário aguardar indiscriminadamente a erupção completa do dente.

Entretanto, a escolha do material e da técnica precisa respeitar as condições de acesso, isolamento e manutenção.

Os selantes resinosos apresentam boa retenção quando utilizados sob condições apropriadas de isolamento e técnica.

Em situações nas quais o controle da umidade é limitado, materiais à base de ionômero de vidro podem representar alternativas, inclusive como proteção provisória ou intermediária, conforme a indicação.

Suas características de retenção e desgaste exigem acompanhamento.

A proteção realizada durante a erupção deve ser reavaliada conforme o dente alcança uma posição mais favorável.

O profissional precisa verificar a integridade do material e determinar se existe necessidade de reparo, substituição ou manutenção da conduta preventiva.

40.7 — Os incisivos permanentes e a região do cíngulo

A erupção dos incisivos permanentes também exige atenção preventiva.

Embora suas superfícies lisas geralmente apresentem menor suscetibilidade à cárie do que as fossas e fissuras oclusais dos molares, determinadas características anatômicas podem criar regiões de retenção de biofilme.

Na superfície lingual ou palatina dos incisivos, especialmente dos superiores, podem existir fossas profundas, sulcos de desenvolvimento e irregularidades associadas à região do cíngulo.

Quando essas estruturas apresentam anatomia retentiva, podem constituir áreas de risco para o desenvolvimento de lesões de cárie.

O exame clínico deve identificar essas características e avaliar sua necessidade de proteção.

O selamento de fossas linguais ou palatinas pode ser indicado em situações específicas, considerando a profundidade da estrutura, sua capacidade de retenção de biofilme, o risco individual de cárie e as condições técnicas para o procedimento.

É importante distinguir a presença normal do cíngulo da existência de uma fossa ou fissura que apresente indicação de selamento.

O objetivo não é selar indiscriminadamente todos os incisivos permanentes, mas reconhecer e proteger regiões anatômicas suscetíveis quando houver justificativa clínica.

40.8 — Materiais e estratégias de proteção das superfícies permanentes

A escolha do material preventivo deve considerar as características da superfície dentária e as condições clínicas disponíveis.

Os selantes resinosos são utilizados principalmente quando existe possibilidade de isolamento adequado, enquanto materiais à base de ionômero de vidro podem ser considerados em determinadas situações de erupção parcial ou dificuldade de controle da umidade.

O verniz fluoretado constitui outra medida importante na prevenção da cárie.

Sua utilização pode contribuir para favorecer a remineralização e reduzir o risco de desenvolvimento de lesões, conforme as necessidades individuais.

Entretanto, o verniz não deve ser confundido com o selamento de fóssulas e fissuras, pois não estabelece a mesma barreira física sobre a anatomia retentiva.

Esses recursos devem integrar uma estratégia preventiva mais ampla, que inclui escovação com dentifrício fluoretado, orientação alimentar, controle de biofilme e participação dos responsáveis.

Nenhum procedimento isolado substitui a necessidade de manutenção diária da saúde bucal.

O T.O.I. procura selecionar a medida mais adequada para cada superfície e para cada paciente, evitando tanto a ausência de proteção diante de uma indicação clara quanto a realização indiscriminada de procedimentos sem necessidade clínica.

40.9 — O Controle Ideal dos selamentos e das medidas preventivas

O selamento não deve ser compreendido como um procedimento encerrado no momento de sua realização.

Sua efetividade depende da manutenção da integridade do material e da continuidade das medidas preventivas.

Por isso, o Controle Ideal constitui parte indispensável da estratégia de proteção.

Durante as avaliações, o profissional deve verificar a retenção dos selantes, a presença de falhas, desgastes ou perdas parciais e as condições das superfícies protegidas.

Quando necessário, devem ser realizados reparos, reaplicações ou outras condutas apropriadas.

O acompanhamento também permite reavaliar o risco de cárie e a necessidade de medidas complementares.

Uma criança pode apresentar mudanças em seus hábitos, alimentação ou condições de higiene, exigindo adaptações na estratégia preventiva.

A proteção dos dentes permanentes deve ser compreendida como um compromisso contínuo.

O procedimento inicial representa uma intervenção importante, mas sua manutenção depende da integração entre prevenção, orientação e Controle Ideal.

40.10 — A Prevenção Recuperativa na dentição mista

Nem todas as crianças chegam à dentição mista depois de terem recebido acompanhamento odontológico desde os primeiros anos de vida.

Algumas procuram atendimento pela primeira vez quando os primeiros molares e incisivos permanentes já estão presentes, sem que determinadas medidas preventivas tenham sido consideradas durante sua erupção.

Nessas situações, o T.O.I. aplica o princípio da Prevenção Recuperativa, estabelecido no Capítulo 31.

O profissional precisa reconstruir a história odontológica, avaliar as condições atuais e identificar oportunidades preventivas anteriores que ainda possam ser aproveitadas.

O objetivo não é reproduzir artificialmente todas as etapas pelas quais a criança passou, mas realizar as medidas que continuam necessárias e clinicamente indicadas.

A avaliação deve incluir a integridade dos dentes decíduos remanescentes, as condições dos dentes permanentes já erupcionados, o risco de cárie e a presença de superfícies anatômicas suscetíveis.

Os primeiros molares permanentes merecem atenção especial, assim como as fossas e fissuras de outros dentes posteriores e as regiões retentivas das superfícies linguais ou palatinas dos incisivos, particularmente próximas ao cíngulo.

Quando houver indicação, o selamento dessas superfícies deve ser incorporado ao planejamento, juntamente com as demais medidas preventivas necessárias.

Caso existam lesões de cárie ou outras doenças instaladas, elas devem receber diagnóstico e tratamento próprios, respeitando suas prioridades clínicas.

A Prevenção Recuperativa não substitui o tratamento; ela complementa a reorganização do cuidado.

A partir dessa avaliação, a criança passa a integrar o protocolo correspondente ao seu estágio atual de desenvolvimento, com acompanhamento individualizado e Controle Ideal.

Dessa maneira, mesmo quando o cuidado não começou precocemente, o T.O.I. procura aproveitar todas as oportunidades de preservação ainda disponíveis.

40.11 — A reorganização das arcadas e das relações oclusais

Durante a dentição mista, a erupção dos dentes permanentes e a substituição dos decíduos modificam progressivamente a organização das arcadas.

Os primeiros molares permanentes começam a estabelecer suas relações, enquanto os incisivos permanentes ocupam posições que podem diferir daquelas anteriormente apresentadas pelos dentes decíduos.

Essas transformações precisam ser interpretadas considerando o crescimento craniofacial, a sequência eruptiva e as características individuais.

Alterações temporárias de alinhamento e posição podem fazer parte do desenvolvimento, enquanto outras condições podem apresentar significado clínico e exigir investigação.

Um exemplo importante é a fase do patinho feio, historicamente descrita por B. Holly Broadbent, em 1941, caracterizada por alterações transitórias de inclinação e espaçamento dos incisivos superiores durante o desenvolvimento eruptivo dos caninos superiores permanentes.

Essa fase pode ser observada principalmente no Período Intertransitório e no início do Segundo Período Transitório. A proximidade dos caninos superiores em desenvolvimento com as raízes dos incisivos laterais superiores exige atenção, pois trajetórias eruptivas desfavoráveis podem representar risco de reabsorção radicular.

Por isso, a interpretação da fase do patinho feio não deve limitar-se à aparência clínica dos incisivos. O acompanhamento do desenvolvimento intraósseo dos caninos superiores e a investigação radiográfica quando indicada constituem responsabilidades importantes do Controle Ideal.

A avaliação das relações oclusais deve reconhecer os contatos dentários, os trespasses, as relações transversais e possíveis desvios funcionais.

O objetivo não é antecipar a correção de toda irregularidade, mas compreender quais características pertencem ao desenvolvimento e quais podem justificar intervenção.

A classificação dos arcos decíduos realizada anteriormente, segundo Baume e a Modificação Mondelli, pode contribuir para interpretar as condições de espaço encontradas durante essa reorganização.

Os registros dos arcos Tipo I, Tipo II e Tipo III devem ser utilizados como referências históricas, sem substituir o diagnóstico atual da dentição mista.

A dentição mista representa uma oportunidade diagnóstica importante porque determinadas alterações podem ser reconhecidas enquanto o sistema ainda está em transformação.

Entretanto, a indicação terapêutica deve permanecer fundamentada no diagnóstico e no Período Ideal.

40.12 — O Período Ideal e o Compasso do Paciente na dentição mista

A dentição mista evidencia a importância de distinguir idade cronológica e estágio de desenvolvimento.

Crianças com a mesma idade podem apresentar números diferentes de dentes permanentes, sequências eruptivas distintas e condições oclusais que exigem interpretações individualizadas.

Na Filosofia Mondelli, a idade dentária clínica é interpretada principalmente pelos acontecimentos de erupção e esfoliação dentária.

O início da dentição mista é determinado pelo primeiro acontecimento clínico de transição: a erupção de um dente permanente ou a esfoliação fisiológica de um dente decíduo.

A idade esquelética poderá contribuir em situações específicas, particularmente quando o planejamento envolver crescimento craniofacial e oportunidades terapêuticas relacionadas à maturação.

O Período Ideal orienta a identificação das oportunidades de intervenção, enquanto o Compasso do Paciente permite reconhecer quando essas oportunidades se apresentam.

Essa relação evita que tratamentos sejam indicados exclusivamente porque a criança alcançou determinada idade.

A dentição mista não deve ser compreendida como uma sequência obrigatória de tratamentos.

Trata-se de uma sequência de transformações que precisam ser corretamente interpretadas para que as decisões ocorram no momento adequado.

40.13 — A Matriz Clínica do T.O.I. na dentição mista

A Matriz Clínica organiza a avaliação por meio das nove perguntas fundamentais.

O que orientar? Explicar aos responsáveis as transformações eruptivas, o início da dentição mista e os cuidados com os dentes permanentes.

O que observar? Reconhecer a sequência de erupção e esfoliação, as condições das superfícies dentárias e a reorganização das arcadas, incluindo o desenvolvimento dos dentes permanentes ainda não erupcionados.

O que documentar? Registrar o acontecimento que iniciou a dentição mista, a evolução dos dentes presentes e as informações relevantes para compreender o desenvolvimento.

O que diagnosticar? Identificar doenças, alterações eruptivas e condições funcionais ou oclusais com significado clínico, investigando trajetórias eruptivas desfavoráveis quando houver suspeita.

O que prevenir? Proteger os dentes permanentes desde sua erupção, incluindo o selamento de fossas e fissuras quando indicado, preservar os dentes decíduos remanescentes e reconhecer situações que possam comprometer as raízes dos dentes adjacentes.

O que controlar? Verificar os resultados das medidas adotadas, acompanhar a substituição dentária e reavaliar as condições de saúde, espaço e função. Durante as etapas pertinentes, o controle inclui a avaliação da trajetória eruptiva dos caninos superiores permanentes.

O que tratar? Realizar intervenções fundamentadas nas necessidades identificadas e no diagnóstico individual.

Qual é o Período Ideal? Reconhecer o momento adequado para as decisões preventivas e terapêuticas, considerando o estágio clínico de desenvolvimento.

O que não podemos deixar passar? O acontecimento que iniciou a dentição mista, as oportunidades de proteção dos dentes permanentes, as alterações de espaço, as condições funcionais e os sinais de erupção ectópica ou de risco às raízes dos dentes adjacentes.

A matriz permite organizar o raciocínio clínico sem transformar a dentição mista em uma sequência automática de procedimentos.

40.14 — A Tríade do T.O.I. durante a dentição mista

A Prevenção assume especial importância porque dentes permanentes recém-erupcionados passam a integrar a cavidade bucal.

Sua proteção, especialmente nas superfícies anatômicas suscetíveis à cárie, constitui uma oportunidade de preservar estruturas que deverão permanecer em função por toda a vida.

A Função envolve a interpretação das relações oclusais em transformação, da mastigação e das condições do sistema estomatognático.

A Estética precisa ser compreendida dentro das características próprias do desenvolvimento, reconhecendo que a aparência dentária pode apresentar mudanças transitórias durante a substituição dos dentes.

O equilíbrio da Tríade exige que as decisões preventivas, funcionais e estéticas sejam integradas.

A preocupação com o alinhamento dos dentes não pode fazer com que a proteção das estruturas recém-erupcionadas seja negligenciada.

Da mesma maneira, a preservação da saúde deve coexistir com o reconhecimento de alterações funcionais que apresentem indicação terapêutica.

O T.O.I. procura integrar essas três dimensões ao acompanhamento da dentição mista, respeitando o estágio clínico de desenvolvimento e as necessidades individuais.

40.15 — O que não podemos deixar passar na dentição mista

A primeira responsabilidade é reconhecer o acontecimento clínico que encerrou a Fase Passiva da dentição decídua e iniciou a dentição mista, conforme a Classificação Clínica da Dentição Decídua — Filosofia Mondelli.

Esse acontecimento pode ser a erupção clínica do primeiro dente permanente ou a esfoliação fisiológica do primeiro dente decíduo, prevalecendo aquele que ocorrer primeiro.

A segunda responsabilidade é reconhecer a erupção dos dentes permanentes e avaliar imediatamente suas necessidades de proteção.

Os primeiros molares permanentes merecem atenção especial, assim como as fossas e fissuras de outros dentes posteriores e as regiões retentivas das superfícies linguais ou palatinas dos incisivos permanentes.

A terceira responsabilidade é preservar os dentes decíduos remanescentes, reconhecendo sua importância para a função e para a manutenção das condições de espaço.

Também não podem passar despercebidas lesões de cárie, alterações eruptivas, perdas precoces de dentes decíduos, assimetrias relevantes, desvios funcionais e condições oclusais que possam justificar investigação ou intervenção.

Durante o Período Intertransitório e o início do Segundo Período Transitório, deve-se prestar atenção especial à trajetória intraóssea dos caninos superiores permanentes, à fase do patinho feio e à possibilidade de relações desfavoráveis com as raízes dos incisivos laterais superiores.

O acompanhamento clínico-radiográfico deve ser indicado conforme os achados e o risco individual, com a finalidade de reconhecer precocemente alterações eruptivas e possíveis reabsorções radiculares. Os critérios específicos de periodicidade e modalidade de exame serão estabelecidos em protocolo próprio.

A quarta responsabilidade é recuperar e interpretar os registros anteriores, incluindo a classificação dos arcos decíduos segundo Baume e a Modificação Mondelli.

A quinta responsabilidade é identificar o período de desenvolvimento da dentição mista, reconhecendo as características do Primeiro Período Transitório, do Período Intertransitório e do Segundo Período Transitório.

Quando a criança não possui acompanhamento anterior, a Prevenção Recuperativa deve ser considerada para identificar medidas ainda pertinentes.

A ausência de registros prévios não pode impedir a realização de um diagnóstico abrangente nem a adoção das condutas preventivas necessárias.

A periodicidade das consultas deve ser estabelecida conforme o risco, a atividade eruptiva e as condições clínicas.

Em determinados momentos, a erupção de dentes com superfícies suscetíveis pode justificar avaliações mais próximas, especialmente quando existe necessidade de realizar ou revisar medidas preventivas.

Essas responsabilidades integram o Ciclo Construtivo do T.O.I., no qual decisões preventivas, acompanhamento adequado e intervenções oportunas procuram estabelecer condições favoráveis para as etapas seguintes.

O objetivo é assegurar que as oportunidades de preservar a saúde e reconhecer o Período Ideal não sejam perdidas durante uma fase de rápidas transformações.

40.16 — Uma dentição, três períodos de desenvolvimento

A dentição mista representa uma continuidade da história odontológica iniciada nos primeiros anos de vida.

Na Classificação Clínica da Dentição Decídua — Filosofia Mondelli, a Fase Eruptiva começa com a erupção clínica do primeiro dente decíduo e termina com a conclusão da erupção dos segundos molares decíduos.

A Fase Passiva inicia-se após esse acontecimento e termina com a erupção clínica do primeiro dente permanente ou com a esfoliação fisiológica do primeiro dente decíduo, conforme o evento que ocorrer primeiro.

Esse marco determina o início da dentição mista na Filosofia Mondelli.

A partir dessa transição, o desenvolvimento passa a ser acompanhado pelos três períodos descritos por Van der Linden.

O Primeiro Período Transitório será marcado principalmente pela chegada dos primeiros molares e incisivos permanentes.

O Período Intertransitório permitirá avaliar a organização resultante dessa primeira transformação e acompanhar o desenvolvimento intraósseo dos dentes que participarão da transição seguinte.

O Segundo Período Transitório envolverá novas substituições dentárias e importantes modificações nas relações oclusais.

O T.O.I. procura atravessar essa fase com diagnóstico atualizado, prevenção individualizada, planejamento fundamentado e Controle Ideal.

A proteção dos dentes permanentes desde sua erupção constitui uma prioridade, mas deve estar integrada à compreensão do desenvolvimento das arcadas e das relações oclusais.

A Prevenção Recuperativa complementa essa organização ao permitir que crianças sem acompanhamento anterior ingressem no T.O.I. com uma avaliação abrangente e recebam as medidas preventivas ainda indicadas.

O Ciclo Construtivo do T.O.I. estabelece a continuidade entre as decisões tomadas na dentição decídua e aquelas realizadas durante a dentição mista.

A preservação dos dentes decíduos, a proteção dos permanentes recém-erupcionados, o acompanhamento das condições de espaço e a identificação do Período Ideal procuram construir condições favoráveis para o desenvolvimento posterior, em contraposição à Desestruturação em Cascata.

Dessa maneira, a filosofia mantém sua continuidade independentemente do momento em que o paciente inicia o atendimento.

A dentição mista não deve ser acompanhada apenas para observar quais dentes estão nascendo. Deve ser compreendida como uma oportunidade de reconhecer os acontecimentos de erupção e esfoliação, proteger aquilo que está chegando, preservar aquilo que ainda permanece e orientar o desenvolvimento da dentição permanente.

Próximo capítulo — Capítulo 41: O Primeiro Período Transitório da Dentição Mista.

Referência histórica

Broadbent, B. H. Ontogenic Development of Occlusion. The Angle Orthodontist. 1941;11:223–241.

 

Dr. Adriano Lia Mondelli